Colônia contra metrópole: a história por trás de Argentina e Espanha, que protagonizam a final da Copa do Mundo

  • 19/07/2026
(Foto: Reprodução)
Espanha e Argentina se enfrentam na final da Copa do Mundo AP/Mahesh Kumar A. O nome do país é uma promessa que a terra jamais cumpriu. Argentina deriva do latim argentum, prata —o mesmo metal que batizou o Rio da Prata. Só que prata, ali, não havia. A palavra guardou por séculos o eco de um boato: o de uma serra reluzente, guardada por um "rei branco", que fascinou os primeiros europeus a subir os rios do sul do continente. Quando a lenda enfim virou realidade, foi a milhares de quilômetros dali, no cerro de Potosí, na atual Bolívia. Essa distância explicaria quase tudo o que veio depois. LEIA TAMBÉM: Espanha tem elenco quase duas vezes mais valioso que o da Argentina; veja valores Gol relâmpago, viradas e recordes: conheça sete curiosidades sobre as finais de Copa do Mundo Uma conquista tardia Os europeus chegaram ao atual território argentino em 1516, com a expedição de Juan Díaz de Solís pelo Rio da Prata. Anos depois, a esquadra de Fernão de Magalhães ancorou na baía de San Julián, na atual província de Santa Cruz. O primeiro assentamento europeu, o forte Sancti Spiritus, foi erguido em 1527 à margem do rio Paraná e logo abandonado. O caso de Buenos Aires resume a fragilidade daqueles primeiros anos. Fundada em 1536 por Pedro de Mendoza, enviado pela Coroa para conter o avanço português, a cidade não resistiu: a falta de recursos e a hostilidade dos querandis levaram os espanhóis a abandoná-la em 1541 e recuar para Assunção. Final entre Espanha e Argentina marca a despedida de Messi das Copas do Mundo A região ficou deserta por quase quatro décadas. Diferentemente do México asteca e do Peru inca, lá não havia impérios ricos a saquear, nem minas evidentes a explorar. Para uma monarquia obcecada com metais preciosos, o Rio da Prata era um apêndice sem urgência. O que mudou o cálculo foi Potosí. Descoberta em meados do século 16, a montanha de prata boliviana transformou o sul do continente numa peça estratégica: era preciso abrir uma saída atlântica para escoar o metal andino, o que exigia avançar rumo ao sul e fundar portos ligados diretamente à Espanha. O mito da serra de prata, afinal, tinha um fundo de verdade —só que no lugar errado. Três correntes, um território Santiago Del Estero, a cidade habitada mais antiga da Argentina Reprodução/Santiago Del Estero, site oficial A ocupação efetiva não veio de uma única frente, mas de três, no que é a periodização clássica da historiografia argentina para entender o mapa do país. O povoamento se deu por três correntes colonizadoras: a do leste (a partir da Espanha e, depois, de Assunção), a do oeste (desde o Chile) e a do norte (desde o Alto Peru). A corrente do norte foi a mais produtiva. Descendo do Peru para proteger as minas de Potosí e buscar comunicação com o Atlântico, os espanhóis fundaram Santiago del Estero e, a partir dela, San Miguel de Tucumán, Córdoba, Salta e San Salvador de Jujuy. Santiago del Estero, erguida em 1553, é hoje a cidade mais antiga ainda habitada do país. Da corrente do oeste, vinda do Chile, nasceram Mendoza, San Juan e San Luis, na região de Cuyo —uma espécie de muralha urbana no sopé dos Andes. Já a corrente do leste, ancorada em Assunção, deu origem às cidades do litoral fluvial: Santa Fé, Corrientes e a segunda —e definitiva— Buenos Aires, refundada por Juan de Garay em 11 de junho de 1580. Cidades em vez de plantações Regiões como a Patagônia ficaram fora do domínio efetivo e permaneceram sob controle de povos indígenas até meados do século 19. Carlos Martinez/via REUTERS Havia uma lógica por trás dessa disseminação de núcleos urbanos. Ao contrário dos britânicos na América do Norte, que se apoiaram em colônias agrícolas, os espanhóis apostaram na colonização urbana: fundavam cidades e, a partir delas, organizavam o campo ao redor. O traçado obedecia a um padrão rígido, o damero —um tabuleiro de quarteirões quadrados em torno de uma praça central, herança dos acampamentos romanos filtrada pela Espanha. A contrapartida foi um mapa cheio de vazios. Vastas regiões como o Chaco, os Pampas e a Patagônia ficaram fora do domínio efetivo e permaneceram sob controle de povos indígenas até meados do século 19. A geografia do poder colonial, concentrada no noroeste e nas rotas de prata, deixou marcas que a Argentina levaria séculos para reescrever. O trabalho que sustentou a colônia Livros do escritor Raúl Mandrini sobre os povos originários argentinos Reprodução Nenhuma cidade se sustentava sem mão de obra indígena, e é aí que a colonização mostra sua face mais dura. Como descreve o historiador Raúl Mandrini em 'La Argentina aborigen', os povos submetidos foram convertidos em súditos e tributários da Coroa, obrigados a pagar tributo em trabalho ou em espécie, sistema que se organizou sobretudo por meio das encomiendas. A esse regime somava-se a mita, o trabalho por turnos que enviava homens para as minas —muitos deles arrancados dos vales Calchaquíes rumo a Potosí. A submissão, porém, esteve longe de ser tranquila. Como registra a coleção Nueva Historia Argentina, a resposta dos povos originários ao avanço colonizador variou conforme suas características culturais, sociais e geográficas, entre a resistência aberta e a submissão —e a destruição de cerca de um terço das cidades fundadas pelos conquistadores mostra o quanto foi árduo dominá-los. No noroeste, a repressão aos diaguitas dos vales Calchaquíes se estenderia por mais de um século. Material didático da Direção-Geral de Cultura e Educação da província de Buenos Aires reúne exemplos desse leque: de comunidades que negociaram com os encomenderos para permanecer em suas terras a confederações que pegaram em armas. Foi o caso dos diaguitas: no noroeste, a repressão aos povos dos vales Calchaquíes se estenderia por mais de um século. Nem toda a presença europeia seguiu a mesma cartilha. Uma bula do papa Paulo 3º, a Sublimis Deus, de 1537, reconheceu formalmente os indígenas como plenamente humanos e cristãos. E, a partir do século 17, a Companhia de Jesus instalou as missões jesuíticas entre os guaranis, comunidades voltadas à evangelização e à proteção contra a escravização, no que hoje são Misiones, Corrientes e áreas vizinhas —até que a expulsão dos jesuítas dos domínios espanhóis, em 1767, encerrasse o experimento. A ascensão de Buenos Aires Buenos Aires foi fundada como “Nuestra Señora Santa María del Buen Ayre” Governo de Buenos Aires/Divulgação Por quase dois séculos, Buenos Aires foi um porto pobre e proibido. A Espanha exigia que suas colônias comerciassem apenas com a metrópole, canalizando tudo por Lima e Cádis —o que asfixiava o Rio da Prata e alimentava o contrabando, sobretudo depois que os portugueses fundaram, em 1680, a Colônia do Sacramento, bem em frente à cidade. A virada veio com as reformas borbônicas. Em 1776, o rei Carlos 3º criou o Vice-Reinado do Rio da Prata para controlar melhor seus domínios: até então, Buenos Aires e o interior dependiam do Vice-Reinado do Peru, e a enorme distância até Lima favorecia o contrabando inglês e português. Dois anos depois, o Regulamento e Tarifas Reais para o Comércio Livre, decreto de Carlos 3º de 12 de outubro de 1778, abriu o porto de Buenos Aires ao comércio legal com outros portos do império. O efeito foi uma inversão histórica. A prata passou a descer pelo Atlântico em vez de subir pelos Andes: no fim do século, o metal altoperuano ainda respondia por cerca de 80% de tudo o que saía do porto de Buenos Aires. A colônia que a Espanha havia ignorado por décadas passou de forte militar a centro comercial e cabeça de um vice-reinado. Nessa reviravolta está o embrião do país. O porto marginal virou centro; uma elite de comerciantes crioulos ganhou peso econômico e ambição política; e a mesma distância de Lima que outrora fizera do Rio da Prata um fim de mundo agora dava a Buenos Aires autonomia para pensar por conta própria. Cinco séculos depois Lamine Yamal e Lionel Messi se enfrentarão na final da Copa do Mundo de 2026 Claudia Greco e Jay Biggerstaff/REUTERS Neste domingo (19), mais de dois séculos após aquela ruptura, Espanha e Argentina voltam a se encontrar —agora no gramado do MetLife Stadium, nos arredores de Nova York, na final da Copa do Mundo de 2026. É a primeira vez que as duas seleções decidem um Mundial entre si: em 14 jogos ao longo da história, nunca haviam se cruzado em uma final, e o único duelo em Copas foi na fase de grupos de 1966, vencido pela Argentina. A Espanha, campeã em 2010, persegue o segundo título; a Argentina, atual campeã e tricampeã, quer o quarto. Cinco séculos atrás, a relação entre os dois países se mediu em prata, tributo e na distância de um oceano. Neste domingo, se decide em 90 minutos —e, no lugar do metal que a colônia jamais encontrou em seu solo, o que está em jogo é uma taça.

FONTE: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/07/19/colonia-contra-metropole-a-historia-por-tras-de-argentina-e-espanha-que-protagonizam-a-final-da-copa-do-mundo.ghtml


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