Baixo desempenho em Matemática na Prova Nacional Docente 2025 acende alerta na formação de professores
23/05/2026
(Foto: Reprodução) Sala de aula.
Ricardo Wolffenbüttel/Udesc
O Ministério da Educação divulgou nesta semana os dados da Prova Nacional Docente aplicada em 2025. Dentre as áreas avaliadas, os profissionais de Matemática tiveram um menor índice de proficiência. Enquanto Ciências Humanas alcançou o número de 80,2% profissionais proficientes, Matemática não atingiu nem metade, ficando apenas com 45% de participantes.
O resultado da prova é um sinal de alerta importante para o ensino da matemática no Brasil. De acordo com a Kátia Smole, presidente do Instituto Reúna e ex-secretária de Educação Básica do MEC, o contexto pós-pandemia agravou o cenário, já que muitos professores chegam às licenciaturas já com lacunas importantes na própria formação em matemática.
“Não temos clareza de como os estudantes das licenciaturas, que costumam ingressar nos cursos com notas mais baixas no Enem, estão sendo apoiados para superar defasagens de aprendizagem vindas da educação básica”, explica.
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Para Smole, uma das principais dificuldades é a separação do conhecimento matemático do conhecimento pedagógico nos cursos. Segundo ela, a Matemática é uma das áreas em que essa distância entre “saber o conteúdo” e “saber ensinar o conteúdo” mais fica evidente. A prova mede também a união dos dois.
“O futuro professor aprende Cálculo, Álgebra, Geometria entre outros assuntos de um lado, e Didática e Psicologia da Educação de outro, mas nem sempre aprende a integrar essas dimensões na prática da sala de aula."
No mesmo sentido, o Ministério da Educação realizou em 2025 a Escuta Nacional de Professores e Professoras que Ensinam Matemática, para entender as dificuldades dos educadores dessa disciplina em sala de aula. O resultado mostrou que apenas 35% dos professores dos Anos Finais e do Ensino Médio relatam ter recebido formação aprofundada em recomposição das aprendizagens em Matemática. Nos Anos Iniciais, o percentual cai para menos de 25%.
O conjunto de pesquisas e resultados, segundo a especialista, demonstra que é preciso ter um foco de governo e escolas em formação continuada para trabalhar situações reais em salas de aula. Além da importância de fortalecer práticas que aproximem teoria e prática.
“O professor precisa sair da licenciatura preparado não apenas para resolver Matemática, mas para fazer os alunos aprenderem matemática. É importante uma mudança de visão: Matemática não pode ser vista apenas como memorização de regras e procedimentos. O foco precisa estar no raciocínio, na resolução de problemas, na argumentação, na compreensão conceitual e no desenvolvimento progressivo das aprendizagens”, completa.
Reflexo em sala de aula
A falta de preparo e formação continuada em matemática reflete diretamente na sala de aula.
Outro dado importante da escuta feita pelo ministério é de que um terço dos professores dos Anos Iniciais não se sente preparado ou se sente pouco preparado para a avaliação em Matemática.
Para a ex-secretária, que também é especialista em educação nas áreas de ciências e matemática, quando os próprios professores dizem que não se sentem preparados para avaliar ou recompor aprendizagens em Matemática, isso mostra que a fragilidade da formação inicial chega diretamente à prática pedagógica.
“Muitos professores conhecem procedimentos matemáticos, mas têm dificuldade em interpretar o raciocínio do estudante, identificar a origem dos erros ou adaptar a explicação quando a turma não aprende.”
Há também um aspecto invisível: a ansiedade matemática dos estudantes. Muitos chegam à sala de aula acreditando que “não são bons em matemática” e parte dos professores também carrega inseguranças da própria trajetória escolar.
“Quando o professor não se sente seguro para ensinar, avaliar e intervir, essa insegurança pode reforçar práticas mais mecânicas e menos investigativas”, acrescenta Kátia.
Desafio sistêmico
A especialista lembra que o ensino da matemática é um desafio sistêmico e que precisa de mais atenção de gestores em todos os níveis: municipais, estaduais e federais.
De acordo com Kátia, a formação docente é central, mas precisa estar articulada à uma política consistente de apoio à aprendizagem matemática. Além disso, o professor precisa ser apoiado continuamente, porque nenhuma política de matemática funciona sem valorização docente e sem investimento.
“O primeiro passo é construir coerência pedagógica sistêmica. Currículo, avaliação, formação de professores, materiais didáticos e práticas pedagógicas precisam trabalhar na mesma direção. A União tem papel importante de coordenação: apoiar financeiramente, produzir referências nacionais, fortalecer avaliações e induzir políticas de formação. Estados e municípios precisam garantir implementação: formação continuada de qualidade, acompanhamento pedagógico, materiais alinhados ao currículo e apoio às escolas na recomposição das aprendizagens.”
Política Nacional Toda Matemática
No ano passado, o Ministério da Educação lançou a Política Nacional Toda Matemática com o objetivo de assegurar o direito à aprendizagem de qualidade na educação básica e melhoria continua do desempenho acadêmico. A expectativa é que a política ajude estados e municípios a priorizar aprendizagens essenciais, fortalecer a formação de professores e apoiar a recomposição das aprendizagens desde os anos iniciais.
De acordo com Kátia Smole, os resultados da política não serão imediatos, mas que é importante a iniciativa de reconhecer que melhorar a aprendizagem matemática não depende de uma ação isolada.
"Países que avançaram em Matemática fizeram isso com continuidade, consistência e investimento de longo prazo. O mais importante é que o Brasil começou a tratar a aprendizagem matemática como uma agenda estratégica para o futuro do país", finaliza.